Tenho muitas amigas que se orgulham de não saber fritar um ovo. Passar um café, então, é considerado quase uma ofensa ao movimento de igualdade de direitos. "Meu Deus, imagina que EU sei fazer café". Nós mulheres aprendemos a pílotar máquinas complexas, como computadores (?!), carros de corrida, helicópteros, trens de Metrô. Voltei da Franca no dia 11 de setembro, dez anos do ataque às Torres Gêmeas e o dia mais tenso do ano para a aviação mundial, em um Boeing pilotado por uma comandante francesa. Um voo tranquilo, tranquilo...
Como se o fato de saber cozinhar tirasse do currículo os diplomas e anos de mercado de trabalho. As conquistas fora do lar, a liberdade de opinar e de ganhar mais do que os homens. Cozinhar, para as mulheres, virou coisa de mulherzinha!
"Você sabe fazer arroz e feijão?"
Fiquei pensando nisso quando liguei para uma amiga e soube, pela empregada, que ela estava fazendo um curso noturno. Cerâmica? Meditação Chinesa? Pilates para Principiantes? Não! Culinária. Hum, já imaginei receitas de risotos italianos, molhos sofisticados, sobremesas finas. Que nada. Era um curso básico para aprender a fazer Arroz e Feijão! "Como alguém casado há 8 anos, com dois filhos, não sabe fazer arroz e feijão?", me perguntei mentalmente. Pois ela não sabia e resolveu aprender.
Não sei se aprendeu e está praticando em casa, ou continua apostando nos dotes culinários da empregada ou do delivery da esquina. Contei esta história para outra amiga, também casada e mãe de dois filhos, que respondeu: "Eu também não sei fazer". Outro susto.
Só sei que nesta corrida maluca pelo mercado de trabalho, deixamos pra trás o interesse pela cozinha , numa espécie de negação da tripla jornada. Mas cozinhar é tão bom, pra quem faz e pra quem recebe um prato preparado com carinho, que os homens, espertinhos que são, logo pegaram pra eles esta lacuna da vida doméstica , principalmente nos finais de semana.
Dá gosto de ver a carinha de satisfação dos marmanjos ao servirem pratos simples, mas bem preparados para amigos e familiares, como se fossem os quitutes mais sofisticados de um bistrô parisiense. Uma simples farofa de banana ou um peixinho assado com um fio de azeite, sal e pimenta do reino, viram iguarias finas dignas de aplausos no final da degustação, ops, almoço.
Nesta tal revolução feminina, perdemos os aplausos da cozinha e não ganhamos todas as salvas de palma que gostaríamos de ter recebido do lado de fora do lar. Vale pensar...Bjos da Chabuca.
PS: Eu sei fazer arroz e feijão! Mas apelo para o delivery quando o bicho pega em casa...


Andrea, minha mãe, que é uma mulher sábia, muitos anos atrás me chamou e chamou dois de meus irmãos. Estávamos entrando na adolescência e ela decidiu que era hora: "Vocês têm de aprender a fazer arroz e feijão. A gente não sabe o dia de amanhã. E não quero filho meu tendo de comer no bar todo dia porque não sabe cozinhar o básico". Não foram exatamente essas palavras (lembre-se: dona Ema é estrangeira). Mas ela botou a gente para aprender de verdade. Fiquei feliz na época por ela ter incluído os meninos (estava meio cansada de ser treinada para ser "mulherzinha" e ver que com eles a cobrança era menor). Enfim, aprendemos. Um dos meus irmãos até foi o dono do melhor feijão da casa por alguns anos.
ResponderExcluirMinha mãe não me ensinou um monte de coisa. Ela achava que meu destino iria me tirar da obrigação da cozinha. De fato, quase me tirou do dia a dia. Mas sempre volto a cozinhar. Não creio que sou o tipo de pessoa que ama cozinhar. Amo tratar bem minha família (quando o cansaço não aperta). Gosto de ver o rosto feliz do meu filho e da minha filha quando faço algo que eles adoram. Sinto-me recompensada. Graças aos céus, meu marido cozinha bem e gosta de me mimar. Então, nesse sentido estamos um tanto resolvidos.
Agora um detalhe sobre a gastronomia boliviana que um dia discutimos à mesa. Perguntei aos meus pais por que se toma sopa todos os dias na Bolívia (é o primeiro prato do almoço). Minha mãe: "costume". Meu pai: "os povos do altiplano precisam de muita hidratação. Naquelas altitudes o corpo precisa de muita água". Minha mãe: "e a Bolívia tem muitos grãos. A sopa é a maneira de se aproveitar bem os grãos".
Lena, tua mãe é muito sábia mesmo. E botou os moleques pra cozinhas, pra sorte das noras rsss; Agora faz muito sentido a história da hidratação no altiplano. É muito seco ali mesmo. Aliás, tua mãe podia fazer aquela maravilhosa sopa de amendoim pra nós , né? hehehehe Sou pidona mesmo. Bjão
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